Carta de abertura

Maria Alice Setubal
Presidente do Conselho Curador

Mariana Almeida
Diretora-executiva
Da escuta à ação realizada a
muitas mãos
Transformação e permanência: compromissos de quem vive um território
Fazer junto. Essa é uma das premissas da Fundação Tide Setubal na formulação de projetos com foco no enfrentamento das desigualdades e na atuação territorial. Seguir essa lógica desde a nossa constituição nos fez praticar e aprimorar aspectos como o processo de escuta ativa das necessidades, demandas e anseios das populações de territórios periféricos.
Atuando há quase 20 anos no Jardim Lapena, bairro da zona leste de São Paulo, em conjunto com a comunidade local, aprendemos que agir e pensar a partir dos territórios periféricos pode ser muito potente na estruturação mais efetiva de toda e qualquer política e prática social que tenham como objetivo a promoção da equidade.
Em 2025, essa abordagem de trabalho em parceria com a população do território foi um motivo de particular orgulho, pois foi um ano em que a comunidade do bairro expandiu suas práticas horizontais e sua autonomia como agente político. Mais do que apoiada, ela é hoje protagonista no desenvolvimento de soluções e escolhas para o cotidiano local. Esse fato consiste no fazer político diário e se conecta com a nossa visão institucional:
"Periferias são locus de geração de oportunidades e assumem um papel de eixo integrador no ciclo de políticas públicas."
No que diz respeito à atuação territorial, uma iniciativa que me marcou de modo significativo em 2025 foi a construção de 51 casas resilientes na região do Baixo Lapena, local com alto nível de vulnerabilidade ao qual a população se vê submetida. Essa ação, realizada por meio do projeto +Lapena Habitar, teve a fundamental parceria da TETO Brasil, ao lado da inestimável colaboração de pessoas voluntárias e da comunidade, para possibilitar a essas famílias o acesso a um dos pilares fundamentais para a sobrevivência e um direito constitucional: o direito à moradia.
Ainda, quando se fala na promoção de direitos e do bem-viver, o projeto conta, por meio de parceria com a organização Gerando Falcões, com processo de suporte às famílias do território, para que possam acessar, de modo pleno, serviços de saúde, educação, empregabilidade, lazer, entre outros aspectos.
A transformação que se viu no Jardim Lapena em 2025 foi tanto da infraestrutura física como da convivência social. Ergueram-se habitações e, com elas, histórias individuais e coletivas, senso de comunidade e capacidade coletiva. As organizações e instâncias que se fortaleceram em 2025 no Jardim Lapena são raiz e fruto dessa transformação.
Foi a força dos passos construídos no Jardim Lapena que nos inspirou a levar a nossa experiência no território para outros espaços. O nosso trabalho possibilitou o ingresso no Programa Periferia Viva. Desenvolvido pelo governo federal por meio da Secretaria Nacional de Periferias (SNP), do Ministério das Cidades, o programa tem como objetivo "melhorar as condições de vida nas favelas e periferias do país", articulando intervenções públicas estruturais e mobilização comunitária para a continuidade de processos de melhoria dos espaços urbanos.
Assim, o conhecimento adquirido a partir da nossa experiência no Jardim Lapena ganhou novos contornos e desafios na medida em que passamos a integrar o Programa Periferia Viva de modo mais intenso em 2025, apoiando a SNP na promoção de boas práticas em diversos territórios.
Ao estarmos às portas dos nossos 20 anos de existência, percebemos que o modo como atuamos precisa estar em constante e ininterrupta evolução para podermos acompanhar as transformações cada vez mais rápidas e profundas em âmbito social. Com isso, o nosso processo de análise passou por colocarmos em perspectiva certezas que até então considerávamos ser inquestionáveis para ponderar sobre a adoção de novos parâmetros que fujam de abordagens em algum nível impositivas e que possam eclipsar a potência e o modo de atuação de lideranças territoriais. Aprender mais, sempre, e mudar.
Esse processo nos pede para refletirmos sobre quais impactos queremos proporcionar em âmbito territorial e na vida das pessoas que ocupam tais espaços – e como nos mobilizamos para fazê-lo. Para tanto, a equipe de Fomento a Agentes e Causas, em convergência com os nossos programas de influência, estruturou ao longo de 2025 um processo intenso de análise sobre os ecossistemas em que as organizações parceiras atuam e quais desafios o campo do investimento social privado (ISP) encontra nesse contexto. Tais aprendizados devem proporcionar novas práticas e formas de "fazer com" também quando falamos no fomento a lideranças e causas de origem negra e periférica.
Boa leitura!
Maria Alice Setubal
O ano de 2025 aprofundou uma sensação que já vinha se desenhando no cenário internacional: a de que vivemos um período de mudanças rápidas e, muitas vezes, difíceis de compreender e de conduzir. A intensificação das disputas comerciais entre grandes economias, o acirramento dos debates em torno das migrações e pertencimentos nacionais e os avanços acelerados da inteligência artificial reforçaram, em diferentes partes do mundo, um sentimento difuso de instabilidade e desamparo.
Em tempos como este, cresce a impressão de que as instituições e os modelos de organização social construídos ao longo das últimas décadas já não respondem com a mesma eficácia aos desafios do presente. Nem mesmo como utopia. Ao mesmo tempo, ainda não temos clareza suficiente sobre quais caminhos poderão substituir essas referências. Entre o que já não funciona plenamente e aquilo que ainda está por nascer, vivemos um momento de transição que exige reflexão, coragem e capacidade de experimentar novas formas de agir.
Para quem atua no campo da transformação social, esse cenário não é apenas motivo de preocupação. É também um convite. Um convite para revisitar trajetórias, reconhecer aprendizados acumulados e buscar novas combinações entre práticas, ideias e compromissos que possam nos ajudar a responder a um tempo em rápida transformação.
Foi com esse espírito que a Fundação Tide Setubal atravessou 2025. Um ano em que buscamos olhar com mais atenção para dentro da própria instituição, revisitando nossa história, nossas formas de atuação e os vínculos que sustentam nosso trabalho. Olhar para trás, nesse caso, não significou nostalgia, mas, sim, reconhecer aquilo que nos trouxe até aqui e continua sendo fundamental para orientar nossos próximos passos.
Esse exercício de reconhecimento institucional abriu espaço para experimentações importantes. Ao longo do ano, avançamos em nossa participação em políticas públicas, aprofundando nossa relação com iniciativas como o Programa Periferia Viva, junto ao Ministério das Cidades, e fortalecendo pontes entre a experiência acumulada nos territórios e as possibilidades de transformação em escala institucional. Também reformulamos nosso portfólio de fomento, buscando torná-lo mais coerente com os desafios contemporâneos e mais consequente com as formas emergentes de desconstruir práticas do olhar colonial.
Ao mesmo tempo, reafirmamos compromissos que fazem parte da identidade da Fundação e reforçam a importância da persistência e da continuidade da atuação para a formação de laços e a geração de impacto positivo. Os princípios que orientam a Plataforma Alas continuaram guiando nosso trabalho de fortalecimento de lideranças e organizações comprometidas com a equidade racial. As relações com a Prefeitura Municipal de São Paulo seguiram sendo tecidas na busca por apoiar gestoras e gestores na organização de soluções urbanas e de melhor alocação de recursos.
Mantivemos nossos apoios a novas estéticas por meio da websérie Ancestrais do Futuro. Prosseguimos na construção do fortalecimento de redes no campo de saúde mental e territórios. E, claro, os vínculos construídos ao longo dos anos com as pessoas do Jardim Lapena continuaram sendo aspectos fundamentais de convivência, escuta e aprendizado, lembrando-nos diariamente de que processos de transformação social se constroem na persistência das relações e na construção de confiança.
Talvez seja justamente essa convivência entre o novo e o antigo o que melhor define o percurso da Fundação em 2025. Transformar não significa abandonar aquilo que aprendemos ao longo do caminho, mas, sim, misturar experiências, renovar práticas e manter vivos os princípios que nos trouxeram até aqui.
Nos territórios, aprendemos que mudanças profundas raramente acontecem por rupturas abruptas ou soluções isoladas. Elas se constroem no tempo, na sobreposição de esforços, na recombinação de ideias e, sobretudo, na permanência de vínculos que permitem atravessar momentos de incerteza sem perder de vista o horizonte de uma sociedade mais justa.
Seguimos acreditando que o compromisso com os territórios, com as pessoas que os constroem e com a busca por justiça social exige exatamente isto: abertura para transformar, coragem para experimentar e disposição para preservar os vínculos e afetos que sustentam esse trabalho.
Foi com esse espírito que atravessamos 2025. Por sustentar a vertigem de atravessar esse caminho conjuntamente, não posso deixar de agradecer a cada uma e a cada um que hoje compõem a Fundação Tide Setubal. É um convívio singular, construído nas histórias e competências diversas que compartilhamos, que pavimenta também essa história para dentro e para fora.
E é com esse olhar ao mesmo tempo de passado e futuro, de individual e coletivo, que convido você a conhecer, nas páginas deste relatório, os caminhos percorridos pela Fundação Tide Setubal ao longo do último ano.
Boa leitura!
Mariana Almeida