Ficha Técnica

Edição: Fernanda Nobre

Concepção editorial: Amauri Eugênio Jr. e William Luz

Textos: Amauri Eugênio Jr.

Revisão: Lupa Texto

Projeto gráfico e diagramação: Gaya Vieira

Programação: Kelvin Crisos

Fotos: Tiago Queiroz (Foto Home) / Marcos Morais (Aviva e Festival Cria na Vila) / Daisy Serena (lançamento da websérie Ancestrais do Futuro) / José Cícero / DiCampana Foto Coletivo (fotos da equipe) / Domenica Pedroso (+Lapena Habitar e cerimônia do IV Prêmio Orçamento Público, Garantia de Direitos e Combate às Desigualdades) / Tamara dos Santos (Encontros Bongola) / Divulgação / Lucas Santos (1° Fórum de Desenvolvimento Econômico Periférico da Fundação Tide Setubal) / Baeta Fotografia (parceria técnica com a Prefeitura de São Luís-MA)

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Imagem na qual Oyèrónkẹ́ Oyěwùmí aparece fazendo anotações. Ana Maria Gonçalves está ao lado dela.>
 

Saberes ancestrais como guias para o presente e o futuro

Em 2025, o lançamento da tradução da obra Estudos Africanos de Gênero, da socióloga nigeriana Oyèrónkẹ́ Oyěwùmí, e a edição 2025 de Encontros Bongola destacaram o papel da Plataforma Ancestralidades na valorização dos saberes ancestrais afro-brasileiros

Ativar epistemologias, ações políticas, estéticas e construções negro-africanas e afrodiaspóricas precedentes ao nosso tempo. Essa é uma das razões de ser da Plataforma Ancestralidades, iniciativa cogerida por Fundação Tide Setubal e Itaú Cultural que tem como objetivo "reunir e difundir conteúdos derivados de processos investigativos para evidenciar as criações dos diversos Brasis baseados em saberes, histórias e culturas da população negra".

Para colocar essas diretrizes em prática, a equipe responsável pela gestão da Plataforma Ancestralidades realizou, em 2025, eventos com esse propósito.

A primeira atividade foi o lançamento da tradução da obra Estudos Africanos de Gênero. Organizada pela socióloga nigeriana Oyèrónkẹ́ Oyěwùmí, a versão brasileira foi fruto da parceria entre Fundação Tide Setubal e Itaú Cultural, por meio da Plataforma Ancestralidades, e da editora WMF Martins Fontes.

O livro foi lançado em 22 de julho de 2025, durante solenidade no auditório do Itaú Cultural que contou com a participação da intelectual e a mediação de Bianca Santana, jornalista, mestra em Educação e doutora em Ciência da Informação.

No decorrer da atividade, a intelectual tratou do impacto da cosmovisão iorubá na cultura brasileira: "Fica tão claro que o orixá encontrou um lar aqui, no Brasil; e se eles estão felizes aqui, eu também estou feliz", comentou durante o evento. Oyěwùmí falou também a respeito dos estudos sobre gênero de acordo com a perspectiva africana e, consequentemente, o processo de resistência e o contraponto à abordagem eurocêntrica.

"Passei toda a minha vida na área acadêmica e há formas em que também resisto e também resisti ao establishment. A minha forma é escrever artigos e estudos – esse é o meu momento de resistência. Eu não aceitaria a representação da mulher africana de forma negativa e eu também não esperaria que outra pessoa fizesse isso."

A visita de Oyèrónkẹ́ Oyěwùmí a São Paulo foi marcada pelo encontro da socióloga com representantes da Marcha das Mulheres Negras. Durante a reunião, que aconteceu no Itaú Cultural na véspera do lançamento de Estudos Africanos de Gênero, as integrantes apresentaram aspectos fundamentais da mobilização e o tema da segunda edição, cujo mote foi Por Reparação e Bem Viver, que aconteceu em novembro do mesmo ano.

Sobre regeneração e novos horizontes

Outra série de atividades realizadas por meio da Plataforma Ancestralidades em 2025 foram os Seminários Bongola: Raça, Clima e Futuros Possíveis, que compuseram a programação do evento Encontros Bongola 2025: Raça, Clima e Futuros Possíveis, que aconteceu em 8 e 9 de setembro de 2025. O evento colocou em pauta reflexões e trocas sobre as intersecções entre questões raciais, mudanças climáticas e novos – e inclusivos – horizontes para o futuro.

Os seminários do primeiro dia tiveram mediação de Ana Sanches, pesquisadora e ativista no movimento negro-ambiental, doutoranda em Mudança Social e Participação Política na Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP) e consultora no departamento de Vigilância em Saúde Ambiental e Saúde do Trabalhador no Ministério da Saúde nas pautas de equidade. Participaram também dos debates que compuseram o encontro:

  • Bayo Akomolafe, psicólogo clínico e escritor iorubá, fundador da The Emergence Network e curador do programa internacional We Will Dance with Mountains, autor dos livros These Wilds Beyond Our Fences e We Will Tell Our Own Story e colaborador no Projeto Regenerar;
  • Kaká Werá, escritor, educador e conferencista indígena, descendente do povo tapuia e acolhido pela comunidade guarani. Autor de 20 livros, como A Terra dos Mil Povos e Menino-Trovão, e vencedor do Prêmio Jabuti de Literatura Infantojuvenil com Apytama, Florestas de Histórias;
  • Maryellen Crisóstomo, jornalista, ativista de direitos humanos, ambientalista, coordenadora da Coordenação Estadual das Comunidades Quilombolas do Tocantins (COEQTO) e integrante do Coletivo de Mulheres Quilombolas da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq).

Já em 9 de setembro, os Encontros Bongola 2025: Raça, Clima e Futuros Possíveis promoveram a exibição do documentário Regenerar: Caminhos possíveis em um planeta machucado. Dirigido e roteirizado pela cineasta Maria Clara Parente, o filme é dividido em três partes que passam, respectivamente, por morte, sonho e vida. A partir desse tripé temático, a obra contém entrevistas feitas entre 2020 e 2021 com especialistas de diversas áreas do conhecimento.

Após a exibição do documentário, o debate sobre a obra e a busca por caminhos possíveis com a preservação ambiental – ou regeneração, para dialogar com o tema – contou com a presença de Maria Clara Parente, Bayo Akomolafe e:

  • Ana Clara Cenamo, psicóloga, geógrafa e produtora executiva, fundadora da Spanda Produtora;
  • Aza Njeri (Viviane Moraes), doutora em Literaturas Africanas e docente do Departamento de Letras e Artes da Cena da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), no Programa de Pós-Graduação em Literatura, Cultura e Contemporaneidade.

Durante os dois dias de atividades, Akomolafe destacou para o público a necessidade e a urgência de mudar o modus operandi e as estruturas socioeconômicas e políticas: "Precisamos ser totalmente diferentes. Não [temos de] somente mudar as periferias, mas, sim, perder o que somos", ponderou à época.

"É o momento em que precisamos sair de onde estamos sentados e sermos seres diferentes. Estamos em um momento no qual não podemos nos dar ao luxo de manter os formatos existentes. Esse modelo está em crise, e justiça climática não é a solução. Precisamos ir além das soluções, pois elas podem permanecer na lógica do problema."

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