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Saberes ancestrais como guias para o presente e o futuro
Em 2025, o lançamento da tradução da obra Estudos Africanos de Gênero, da socióloga nigeriana Oyèrónkẹ́ Oyěwùmí, e a edição 2025 de Encontros Bongola destacaram o papel da Plataforma Ancestralidades na valorização dos saberes ancestrais afro-brasileiros
Ativar epistemologias, ações políticas, estéticas e construções negro-africanas e afrodiaspóricas precedentes ao nosso tempo. Essa é uma das razões de ser da Plataforma Ancestralidades, iniciativa cogerida por Fundação Tide Setubal e Itaú Cultural que tem como objetivo "reunir e difundir conteúdos derivados de processos investigativos para evidenciar as criações dos diversos Brasis baseados em saberes, histórias e culturas da população negra".
Para colocar essas diretrizes em prática, a equipe responsável pela gestão da Plataforma Ancestralidades realizou, em 2025, eventos com esse propósito.
A primeira atividade foi o lançamento da tradução da obra Estudos Africanos de Gênero. Organizada pela socióloga nigeriana Oyèrónkẹ́ Oyěwùmí, a versão brasileira foi fruto da parceria entre Fundação Tide Setubal e Itaú Cultural, por meio da Plataforma Ancestralidades, e da editora WMF Martins Fontes.
O livro foi lançado em 22 de julho de 2025, durante solenidade no auditório do Itaú Cultural que contou com a participação da intelectual e a mediação de Bianca Santana, jornalista, mestra em Educação e doutora em Ciência da Informação.
No decorrer da atividade, a intelectual tratou do impacto da cosmovisão iorubá na cultura brasileira: "Fica tão claro que o orixá encontrou um lar aqui, no Brasil; e se eles estão felizes aqui, eu também estou feliz", comentou durante o evento. Oyěwùmí falou também a respeito dos estudos sobre gênero de acordo com a perspectiva africana e, consequentemente, o processo de resistência e o contraponto à abordagem eurocêntrica.
"Passei toda a minha vida na área acadêmica e há formas em que também resisto e também resisti ao establishment. A minha forma é escrever artigos e estudos – esse é o meu momento de resistência. Eu não aceitaria a representação da mulher africana de forma negativa e eu também não esperaria que outra pessoa fizesse isso."
A visita de Oyèrónkẹ́ Oyěwùmí a São Paulo foi marcada pelo encontro da socióloga com representantes da Marcha das Mulheres Negras. Durante a reunião, que aconteceu no Itaú Cultural na véspera do lançamento de Estudos Africanos de Gênero, as integrantes apresentaram aspectos fundamentais da mobilização e o tema da segunda edição, cujo mote foi Por Reparação e Bem Viver, que aconteceu em novembro do mesmo ano.
Sobre regeneração e novos horizontes
Outra série de atividades realizadas por meio da Plataforma Ancestralidades em 2025 foram os Seminários Bongola: Raça, Clima e Futuros Possíveis, que compuseram a programação do evento Encontros Bongola 2025: Raça, Clima e Futuros Possíveis, que aconteceu em 8 e 9 de setembro de 2025. O evento colocou em pauta reflexões e trocas sobre as intersecções entre questões raciais, mudanças climáticas e novos – e inclusivos – horizontes para o futuro.
Os seminários do primeiro dia tiveram mediação de Ana Sanches, pesquisadora e ativista no movimento negro-ambiental, doutoranda em Mudança Social e Participação Política na Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP) e consultora no departamento de Vigilância em Saúde Ambiental e Saúde do Trabalhador no Ministério da Saúde nas pautas de equidade. Participaram também dos debates que compuseram o encontro:
- Bayo Akomolafe, psicólogo clínico e escritor iorubá, fundador da The Emergence Network e curador do programa internacional We Will Dance with Mountains, autor dos livros These Wilds Beyond Our Fences e We Will Tell Our Own Story e colaborador no Projeto Regenerar;
- Kaká Werá, escritor, educador e conferencista indígena, descendente do povo tapuia e acolhido pela comunidade guarani. Autor de 20 livros, como A Terra dos Mil Povos e Menino-Trovão, e vencedor do Prêmio Jabuti de Literatura Infantojuvenil com Apytama, Florestas de Histórias;
- Maryellen Crisóstomo, jornalista, ativista de direitos humanos, ambientalista, coordenadora da Coordenação Estadual das Comunidades Quilombolas do Tocantins (COEQTO) e integrante do Coletivo de Mulheres Quilombolas da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq).
Já em 9 de setembro, os Encontros Bongola 2025: Raça, Clima e Futuros Possíveis promoveram a exibição do documentário Regenerar: Caminhos possíveis em um planeta machucado. Dirigido e roteirizado pela cineasta Maria Clara Parente, o filme é dividido em três partes que passam, respectivamente, por morte, sonho e vida. A partir desse tripé temático, a obra contém entrevistas feitas entre 2020 e 2021 com especialistas de diversas áreas do conhecimento.
Após a exibição do documentário, o debate sobre a obra e a busca por caminhos possíveis com a preservação ambiental – ou regeneração, para dialogar com o tema – contou com a presença de Maria Clara Parente, Bayo Akomolafe e:
- Ana Clara Cenamo, psicóloga, geógrafa e produtora executiva, fundadora da Spanda Produtora;
- Aza Njeri (Viviane Moraes), doutora em Literaturas Africanas e docente do Departamento de Letras e Artes da Cena da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), no Programa de Pós-Graduação em Literatura, Cultura e Contemporaneidade.
Durante os dois dias de atividades, Akomolafe destacou para o público a necessidade e a urgência de mudar o modus operandi e as estruturas socioeconômicas e políticas: "Precisamos ser totalmente diferentes. Não [temos de] somente mudar as periferias, mas, sim, perder o que somos", ponderou à época.